Cacá Ottoni: “Sou ótima em matéria de sobrevivência”

Aos 26 anos, a atriz tem carreira brilhante no cinema e na televisão, mas afirma que não se deixa levar pelos elogios: sabe que a carreira artística não é fácil e, por isso, não tem medo de se jogar nas oportunidades

Cacá Ottoni | <i>Crédito: Simone Francisco/Divulgação
Cacá Ottoni | Crédito: Simone Francisco/Divulgação


Antes de um convite oficial, foi nos corredores da RecordTV que Cacá Ottoni ficou sabendo que faria parte do elenco de Jesus. A atriz, em meio às gravações da minissérie Lia, recebia os parabéns dos colegas que viram seu nome em meio aos atores convocados para o mais ousado folhetim bíblico até então. “Achava tudo muito engraçado até que o diretor, Edgar Miranda, veio falar comigo e comecei a receber os capítulos”, conta ela, que dá vida a sofrida Diana na produção assinada por Paula Richard.

Na trama, Diana é filha de Adela (Adriana Garambone), uma prostituta que a vende como serva para o palácio de Pilatos, interpretado pro Nicola Siri.

A carga dramática, no entanto, fica só em cena. Cacá garante que, nos bastidores, a energia é outra. “Já tinha trabalhado com o Nicola antes em Santo Forte, uma série da Sony. Adoro ele! Além de ótimo ator é uma pessoa alto astral, engraçadíssima, gente boa demais”, revela.

Aos 26 anos, e com 12 de carreira, a estrela tem os pés no chão e não se deixar levar pelos elogios e, com muita humildade, recebe com carinho os prêmios e indicações como a de Melhor Atriz no Festival de Los Angeles – LABRFF pelo longa-metragem Canastra Suja (2018).

“Não sou nada convencida. Muito pelo contrário. Sou muito crítica comigo, principalmente profissionalmente”, conta a intérprete, que também se realiza como a mãe da pequena Malu, fruto do relacionamento com o cineasta Lucas Rossi.

TITITI – Você começou na carreira artística muito cedo, nunca bateu uma dúvida se era isso mesmo que queria?
Cacá Ottoni
– Sempre tive certeza de que era o que eu queria, mas muitas vezes me deparei com a insegurança pela possibilidade de se tornar inviável. Lido com a obrigação de me sustentar desde cedo, meus pais também são artistas, instáveis e apesar de todo o suporte emocional,  não posso contar com nenhuma ajuda financeira. Logo, os períodos entre um trabalho e outro sempre me assombraram. No entanto, não tenho problema algum em "jogar nas 11". Já fiz simulação de enchente, simulação de doenças, já panfletei, já trabalhei com produção e edição de vídeos... sou ótima em matéria de sobrevivência (risos)!

Como foi emendar Lia com as gravações de Jesus?
Maravilhoso! Ainda tive a sorte de começar em Lia com cenas mais fáceis, dramaturgicamente falando, e emendar em Jesus com a Diana que surpreende muito ao longo da trama. Por incrível que pareça nunca tive uma preparação tão duradoura e consistente na televisão. Toda semana, mesmo durante as gravações de Lia, tinha workshop pra novela na RecordTV. Aprendi muito sobre as diversas culturas que se encontravam naquela região na época retratada. Não tenho do que reclamar. 

Aliás, no folhetim, sua personagem tem uma carga dramática muito forte. Como faz para não levar a energia para casa?
Tão importante quanto a construção da personagem é conseguir desconstruí-la quando o trabalho termina. Às vezes, me deparo com uma ansiedade depois de cenas com alta carga dramática, e procuro respirar pra entender o que é meu e o que é consequência do meu ofício que brinca o tempo todo com as emoções. Mas acho bem importante o acompanhamento psicológico pro trabalho do ator, já que nem sempre conseguimos identificar sozinhos se nossas emoções estão organizadas de forma saudável.

Tem alguma fé?
Não tenho religião, mas tenho muita fé. Converso com o meu Deus todos os dias. Depois que a Malu, minha filha, nasceu então... agradeço o tempo todo por tudo na minha vida! Às vezes me pego agradecendo por um único cômodo da minha casa estar organizado, por acordar, por respirar e principalmente pela saúde da Malu. Acredito no poder dos afetos nas relações e acho de verdade que a cura do mundo está no amor.

Falando nisso, a maternidade mudou muito a sua visão de mundo e de vida?
Considero que a maternidade inaugura uma vida dois para qualquer mulher. Como se te dissessem: sabe tudo aquilo que você achava que era a vida? Então, não é. Tudo é novo! A expectativa da gravidez, a dificuldade pra amamentar das primeiras semanas, a ressignificação da palavra "dormir" pro resto da vida, a preocupação constante com um ser que você ama de uma forma inexplicável. É muito amor. Mas a volta ao trabalho fez muito bem pra minha relação com a Malu também. Redescobrir a minha individualidade está sendo maravilhoso! E ela também está ganhando cada vez mais o mundo. Esta falante, cheia de experiências e amigos novos na escola! Ela é demais! 

Além dos folhetins, você tem uma carreira brilhante no cinema, com vários prêmios e indicações em festivais pelo mundo. O reconhecimento a ajuda a ir em frente numa profissão tão difícil?
Mais ou menos. Fico muito feliz e grata pelo reconhecimento em relação ao meu trabalho, mas continuo morrendo de medo do fim do contrato e sem saber muito a respeito da minha vida no futuro. O que ajuda mesmo a perseverar como atriz no Brasil é estar sempre trabalhando. Gostaria muito de ser atriz pra sempre, mesmo que pra sempre seja muito tempo, sou realmente apaixonada pelo que faço, mas a minha realidade infelizmente é estar atriz o máximo que conseguir. Tomara que eu consiga cada vez mais emendar um estar atriz daqui com um estar atriz acolá até preencher o meu pra sempre inteiro.

Como mantém o pé no chão e não deixa se levar pelos elogios?
Não sou nada convencida. Muito pelo contrário. Sou muito crítica comigo, principalmente profissionalmente. Além de ter a absoluta convicção de que não existem pessoas superiores ou pessoas inferiores do que outras. Essa regra número um da vida, eu aprendi. Somos todos iguais, pelo menos deveríamos ser e só não podemos afirmar essa verdade devido a uma doença da sociedade que é a desigualdade.

Pensa em, algum momento, também trabalhar por trás das câmeras?
Me interesso mais por roteiro do que por direção. Sempre gostei de escrever. O Lucas Rossi, pai da Malu e amor da minha vida, trabalha com cinema e dirigiu recentemente um curta que tive o prazer de colaborar na escrita do roteiro. Foi ótimo! A experiência de ver o diálogo que a gente escreveu no cinema também é fantástica. A sensação é a de assistir sua imaginação concretizada. Os atores do filme também não brincam em serviço: Tonico Pereira e Camila Amado. Aliás, o filme se chama Vestido de Miryam, se tiverem a oportunidade assistam! Filmaço!

 



14/08/2018 - 14:52

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